quinta-feira, Maio 31, 2007

Navegar é preciso, viver não é preciso

Partilho agora aqui uma das minhas frases preferidas. É anónima, ao que parece, e serve de epígrafe à Mensagem de Fernando Pessoa.




"Navegar é preciso, viver não é preciso"


Tem vindo aqui muita gente à procura do significado ou sentido desta frase, que julgam ser de Camões, pois é frequente confundir a poesia da "Mensagem" de Fernando Pessoa com a de Camões em " Os Lusíadas". Isto deve-se ao facto de Pessoa ter querido tratar, de forma moderna, os mesmos temas e assuntos que Camões tratou nessa obra, até porque Pessoa não apreciava Camões. Até porque julgava ser ele mesmo o supra-Camões.


Creio que o sentido da frase é este: não importa mesmo nada a vida que viveu aquele português que embarcou para os Descobrimentos, naufragou e morreu, ou regressou, casou, procriou e morreu... tudo isso é vulgar e inútil. O importante é que essas pessoas "navegaram", ou seja, metaforicamente, fizeram obra de que a humanidade se pode orgulhar.
Devemos, segundo esta ideia, preocupar-nos em "Navegar" e não em viver: Navegar é Preciso Viver não é Preciso.
Também tem outro sentido: navegar é algo que se faz com exactidão, com mapas e instrumentos, viver é algo que se faz por improviso...


Conseguir dizer tudo isto e muito mais numa frase que ainda por cima não assume como sua... é obra: É navegação sem terra à vista do nosso caro amigo Fernando.


Ainda mais recentemente, descubro esta autoria da frase, que me parece legítima: a frase é da autoria de Pompeu, general romano: "Navigare necesse; vivere non est necesse" -no original em latim. A frase será então de Pompeu, general romano (106-48 aC.), dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra. (cf. Plutarco, in Vida de Pompeu). Ver comentário de João Paulo Cabrera.
Dado que Pessoa atribui a frase a navegantes antigos, parece-me que se refere aos antigos romanos. Quanto a ser de Camões, eu afirmo terminantemente que não é.


3 de Julho 2009: Só agora descobri a possível origem desta confusão: vi pela primeira vez o filme Nemo. Vi-o com legendas em português do Brasil. A certa altura, um dos peixes disse esta mesma frase e atribuiu-a a Camões. Não creio que exista no original... Que dizem vocês?
Eu digo que vieram aqui pessoas através de pesquisas que incluíam o peixe Nemo, o que me parecia incompreensível. Aliás, este é um dos posts mais visitados deste blogue. Juntamente com um que tem fotos do navio Santíssima Trinidad.




Ver aqui o texto integral, que pode funcionar como introdução à obra Mensagem


30 Outubro 2010: Já agora, acabo de descobrir que este post é citado num interessante site brasileiro, 


Tentei colocar lá um comentário, mas não consegui, pois para isso deveria registar-me e não consegui fazer isso bem... Deixo aqui o comment que havia escrito.


Agradeço as referências feitas aqui ao meu blogue  (http://terraimunda.blogspot.com/) e ao esclarecimento que dou sobre essa frase. No contexto da obra de Pessoa, também me parece que é mais de valorizar a ideia de que viver não é importante (necessário). Não deixa de ser curioso, também, que esta frase tão apreciada de Pessoa não seja realmente sua... tem a ver com as máscaras. E muitos até pensam que é de Camões... o que, seguramente, lhe teria desagradado. Pessoa não apreciava Camões. O "Imperador da Língua Portuguesa", para ele, seria o Padre António Vieira. O que vos deve agradar a vocês, pois o padre era meio brasileiro e amava o Brasil (cá em Portugal, chamamos brasileiros aos portugueses que vivem no Brasil).


Clicar Aqui

11 comentários:

Navegar é preciso, viver não é preciso disse...

essa frase é de CAMOES, e, para esclarecer: interpretada erroneamente qto a necessidade de navegar e não de viver.
Acontece que a frase se refere a epoca das navegações, portanto , PRECISO = PRECISÃO, EXATIDÃO.

Nádia Jururu disse...

Obrigada.
É claro que "preciso" pode querer dizer que tem exactidão e eu também interpreto assim. A frase, não creio que seja de Camões, pelo menos nunca a vi identificada como dele. Pessoa atribui-a a "navegantes antigos".
É claro que, se conhece a poesia da Mensagem, Pessoa quer dizer, poeticamente, que viver não é necessário, pois também diz que a vida é "METADE DE NADA" e outras frases com o mesmo sentido.
Mas tudo bem, apareça por aqui.

João Paulo Cabrera disse...

Essa frase não é de Camões.Essa frase é do do general romano Pompeu (106-48 a.c.) dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra. Está descrita na obra de Plutarco Vida de Pompeu e Agesilau na coletânea de biografias em pares (grego-romana) conhecida como Vidas Paralelas.
Plutarco é conhecido por outras biografias separadas como de Alexandre o grande e era um dos escritores preferidos de Rousseau.
Mas enfim, adoro essa frase também. :)

Nádia Jururu disse...

Obrigada pelo seu comentário.
Aparecem-me aqui pessoas, sobretudo brasileiras (eu sou portuguesa), a afirmar que a frase é de Camões e que Camões quer dizer, exactamente, que navegar é um acto de precisão, como se os poetas fossem assim tão claros naquilo que dizem.
Este é um dos posts mais procurados deste meu blogue, mas tenho mais dois referentes ao mesmo assunto. É só clicar nas palavras que aparecem em rodapé e os outros posts aparecerão a seguir a estes.

Luiz Carlos disse...

Atribuir à palavra preciso, nessa frase, o significado de exatidão é no mínimo uma ignorância histórica: na época não havia nada mais impreciso do que navegar, somente depois que bravos navegadores escolheram se lançar ao mar com o objetivo de aperfeiçoar a arte, o ofício, a ciência da navegação é que navegar passou a ter exatidão. Foi preciso navegar e não gozar a vida.

Probus disse...

Sócrates? Disse!
Platão? Escreveu!
Jesus? Repetiu!
Marx? Consolidou!
E o homem? O homem finge que não ouve.

Nádia Jururu disse...

Luís Carlos:
Entendo os eu ponto de vista: navegar era impreciso, antigamente e não um acto de grande precisão. Talvez, então, Pessoa quisesse dizer que, se navegar é impreciso, viver é-o ainda menos.
Repare: o original, de Pompeu segundo Plutarco, diz:
"Navigare necesse; vivere non est necesse" , o que poderia srr traduzido por: "navegar é necessário, viver não é necessário". Se Pessoa escolheu o termo preciso, foi para lhe atribuir novos e diferentes sentidos...
Agradeço a todos os muitos visitantes desta página e a todos os que deixaram comentários, alegrando-me por poder esclarecer algo que vos/nos é caro.

Júlio Lucas disse...

Intuitivamente, acredito que Pessoa parafraseou os antigos que se lançavam ao mar, repleto de mistérios e perigos, para dizer que melhor que viver atracado no ancoradouro do conformismo e da mediocridade, é necessário aventurar-se ao novo, ao desconhecido. Coisa que o poeta faz magistralmente na ousadia de criar.

Nadinha disse...

Muito bem, João Lucas. Obrigada pelo seu contributo.

Anónimo disse...

Creo que navegar satisface una necesidad mucho mas profunda conectada a la esencia del ser, encambio vivir en tierra es aburrido e intracendente, es dificil interpretar hoy las intenciones de un general romano o un poeta, pero es absolutamente cierta para cualquier persona que navega a vela .

Nadinha disse...

Si, gracias.
Creio que esta frase enriquece as nossas vidas e o próprio ato de navegar.
Obrigada.